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Itinerários

Uma "Viagem" por Santarém, segundo Almeida Garrett


 

Santarém tem um património monumental notável. Cheia de monumentos e recantos que não deixam ninguém indiferente, é difícil nomear todos os seus pontos de interesse. Optámos por um único percurso. Aquele que ficou imortalizado na obra de Almeida Garrett. Percorremos as "Viagens na minha terra" e descobrimos por onde andou o escritor.


No tempo das “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett, Santarém foi palco de importantes acontecimentos históricos. No início do século XIX, quando a Vila foi ocupada pelos exércitos franceses, muitos edifícios foram vítimas de actos de vandalismo. Apesar disto, as filosofias e políticas Liberais, inspiradas na França Revolucionária, tiveram seguidores entre os scalabitanos e enormes consequências na Vila. Em 1834, as ordens religiosas foram extintas e os seus conventos nacionalizados, o que acentuou a deterioração do património de Santarém. Muitos desses conventos foram transformados em repartições públicas, quartéis militares, hospitais, instituições de assistência ou, em muitos casos, foram demolidos.

É neste contexto que Almeida Garrett visita Santarém e encontra uma "povoação descaída e desamparada", uma "grande metrópole de um povo extinto, de uma nação que foi poderosa e celebrada, mas que desapareceu da face da terra e só deixou o monumento de suas construções gigantescas."



O primeiro contacto de Almeida Garrett com Santarém, em termos monumentais, deu-se no Convento do Sítio ou de Jesus. “À esquerda o imenso Convento do Sítio ou de Jesus...” Construído no século XVII, é hoje conhecido por Igreja do Hospital, porque naquele local funcionou até há alguns anos atrás o antigo hospital de Santarém, fundado por João Afonso na altura da extinção das ordens religiosas. O Convento do Sítio, que pertence à Misericórdia de Santarém, é hoje um estabelecimento de ensino e um centro de saúde e a sua Igreja continua ao serviço do culto católico.






“Agora vamos à Alcáçova! (…)Depois de muito procurar entre pardieiros e entulhos, achámo-la enfim a Igreja de Santa Maria de Alcáçova.” Hoje, não é este o cenário que encontramos, mas antes uma avenida de acesso ao Jardim das Portas do Sol e à Igreja de Santa Maria da Alcáçova. O monumento é um pequeno templo construído pelos Templários, em 1154, poucos anos depois da conquista de Santarém. Foi reedificada no século XVI e nessa altura perdeu todos os traços medievais.








No mesmo capítulo das “Viagens” encontramos "a velha Igreja de S. João do Alporão", construída durante o século XII. A Igreja integrava-se numa das portas de acesso à Vila – a Porta de Alporão - e era um ponto fundamental na organização urbana de Santarém. No século XIV, realizavam-se no local reuniões onde se discutiam os problemas da Vila. Mais tarde, corria o século XVII, chegou a servir de arrecadação a um particular. Em 1910, o edifício foi classificado como Monumento Nacional e hoje é o Museu Municipal de Santarém, onde pode ser visto um valioso espólio arqueológico e cultural.








Ao lado da Igreja de S. João do Alporão, “cá está a curiosa Torre das cabaças”. Segundo a voz popular, o seu nome deriva das sete cabaças de barro colocadas no cimo da torre, que recordariam as cabeças ocas dos vereadores responsáveis pela construção de tão deselegante obra. No entanto, o seu aspecto deverá ter resultado da demolição das muralhas vizinhas. Actualmente, pode ser visitado no local o Núcleo Museológico do Tempo.









“Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvila pelo lado norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarém. Tão magnífica é a entrada...” A Igreja de Santa Maria de Marvila assumiu-se ao longo de toda a Idade Média como um dos principais templos da cidade, quer pela importância religiosa que cedo assumiu, quer pela sua localização central na malha urbana. Da igreja medieval reformada em 1244 já pouco subsiste. Hoje é conhecida nacionalmente pela riqueza da sua azulejaria, sendo considerada a "catedral do azulejo" seiscentista.






Seguimos caminho e "chegámos à Porta do Sol, sentámo-nos ali a gozar a majestosa vista." Lá em baixo corre o rio Tejo, que beija por onde passa os mais variados cenários, desde as colinas que mostram o final da Serra D’Aire e Candeeiros à extensa Lezíria, que segue para sul, até se encontrar com as planícies alentejanas. “O mais belo, o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os olhos”, disse Almeida Garrett.







"Inclinando um pouco à direita, demos na celebrada Porta de Atamarma." Foi por aqui que terá entrado D. Afonso Henriques, na conquista de Santarém aos mouros, em 1147. Já não há vestígios da existência da porta da Atamarma. Foi aprovada a sua demolição, em 1865, por ameaçar ruína. Existe, no entanto, no Largo do Barão, junto à calçada da Atamarma, o obelisco que assinala o local da demolida porta.









Avançamos na leitura, que nos leva agora à Igreja da Graça. ”Fomos passar diante do arredondado e elegante frontispício gótico da Graça." Obra do século XV, foi sede da antiga casa de frades gracianos de Santo Agostinho e é um dos mais belos exemplares do estilo gótico em Santarém. Nesta igreja repousa, entre outros, o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.






Nas “Viagens na minha terra”, Almeida Garrett menciona também uma visita ao já extinto Convento de S. Domingos. "… um dos mais antigos estabelecimentos monásticos do reino.” Não existe documentação sobre a sua origem. Sabe-se que, em 1812, sofreu os estragos das invasões francesas e foi reparado para instalar doentes feridos e os soldados britânicos do destacamento que permaneceu em Santarém. Mais tarde foi ainda utilizado como palheiro do Comissário do Exército e o seu pátio como matadouro da Câmara. Em 1840, o mesmo pátio terá servido de depósito das lamas levantadas nas ruas da Vila. Dois anos depois começou a ser demolido.




“Descemos à igreja (..) notável não tem nada senão (...) relíquias da primitiva igreja do Santo Milagre...” Chegamos assim à Igreja de Santo Estevão ou do Santíssimo Milagre, datada do século XIII. Este monumento está ligado à lenda do Milagre de Santarém, que relata o roubo e a profanação de uma hóstia consagrada, por uma residente na paróquia de Santo Estêvão. No século XVI, a Igreja foi restaurada, o que terá descaracterizado o velho templo, sobretudo na parte exterior.





A leitura leva-nos agora ao Colégio dos Jesuítas ou Igreja do Seminário. Um edifício, segundo Almeida Garrett, “...grandioso, vasto, magnífico.” O espaço foi ocupado pelo Paço Real, mas as funções de aposento régio, cada vez menos habituais, fizeram com que D. João IV doasse o Colégio aos Jesuítas, para a construção de um templo. Hoje, a Igreja do Seminário é a Sé da Diocese de Santarém.




Quase no final das “Viagens”, “entremos nesse convento das pobres Claras, tão aflitas e desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades." A fundação do Convento de Santa Clara remonta a 1259, mas actualmente resta apenas a Igreja. As outras dependências - celas e claustro - foram demolidas. Em Abril de 1902 morreu a última freira do Convento e este foi encerrado. Iniciou-se então um período de total abandono. Foi arrecadação militar, seguiu-se a pilhagem e o leilão dos bens, até à demolição das paredes. Restou a Igreja, agora restaurada.




A terminar o percurso por Santarém, "aproximei-me enfim do real Convento de São Francisco (…) é uma bela ruína, que merecia ser examinada devagar." O Convento de S. Francisco foi fundado pelo Rei D. Sancho II, entre 1242 e 1245. Mais tarde, a obra foi enriquecida por D. Fernando, que aqui teve a sua jazida, segundo sua vontade, até o túmulo ser transferido para o Panteão Nacional. Depois da extinção das ordens religiosas, o Convento foi profanado, a igreja transformada em palheiro e o claustro em cavalariça. Foi também utilizado como refeitório de soldados e muitos túmulos serviram de bebedouro para cavalos. A culminar, em 1940, o edifício foi devastado por um incêndio. Nos últimos anos, algumas obras têm tentado restaurar o Convento, que, apesar de tudo, guarda ainda grande beleza e valor.


“Vou-me embora (...) Santarém fatigou-me o espírito, como todas as coisas que fazem pensar muito. Deixo-a porém com saudade e não me hei-de esquecer nunca dos dias que aqui passei.”


Outros locais a visitar em Santarém


Igreja de Nossa Senhora da Piedade
Praça Sá da Bandeira


Igreja de S. Nicolau
Largo Ramiro Nobre, nº8


Igreja (da Senhora da Visitação) da Misericórdia
Rua 1º de Dezembro, 
Travessa da Misericórdia, nº13

Igreja de Santa Cruz
Escadinhas de Santa Cruz
Santa Iria Ribeira de Santarém


Capela de Nossa Senhora do Monte
Rua do Monte


Fonte das Figueiras
Calçada das Figueiras
Estrada Nacional 114


in "Info Lezíria do Tejo", Revista da Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo, de Abril/Maio/Junho de 2003